Ela que lute!

Fim de semana e ela continua com o corpo muito mole. Cabeça um pouco tonta. Ela já tinha visto na lista de sintomas da H3N2: cansaço extremo. Quando leu, se perguntou o que seria isso? Talvez hoje ela esteja sentido na pele o significado. Mesmo não sabendo explicar a diferença entre o "cansaço extremo" e "preguiça extrema".

Ela não é boba. Mesmo querendo ser. Estava determinada no projeto exercício físico: andar e baixar o bucho. Mas essa última semana, entre sentir o vírus e olhar a Covid pela janela, ela ficou arriada! Não é o tradicional autoboicote. É mesmo um corpo exausto! Ela até tentou comunicar, em casa, como estava se sentindo. Recebeu de volta a clássica: é preguiça mesmo, você está de férias. 

Ela quer ser boba. Precisa às vezes. Só que o mundo, ela já aprendeu, não faz exatamente o que ela deseja. Por exemplo: ultimamente ela tem desejado profundamente estar fisicamente sozinha em sua casa, uma vez que já é só-somente-sozinha. Não rolou. Pois é.

E aí, nesse exato momento, ela se dá conta de que seu corpo exausto também é por isso. Exaustão de desejos não realizados. De sonhos não efetivados. De cuidados não terceirizados. Sente saudades profunda de sua mãe biológica. Inveja os amigos que conseguem viajar e se isolar. E pede a sua mãe espiritual algum conforto metafísico. Já que no plano físico, as coisas estão mesmo muito pesadas e fadigantes.

Na cozinha, não sente força pra lavar os pratos. Ela não quer mesmo. Na casa, não sente força pra arrumar. Ela não quer mesmo. Olha ao redor e sente o ar de cobrança e falsa preocupação. Ela não... Sim ela queria que fosse real. Preocupação real. Cuidado real. Compreensão real. Mas ela sabe que é tudo ilusão. Já confirmou um milhão de vezes. Literalmente e metaforicamente. Isso a deixa exausta.

Só-somente-sozinha. Exausta. Ela que lute!

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