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Mostrando postagens de fevereiro, 2022

Roda mundo, roda moinho

Ela não sabe exatamente o que fazer. Anda meio perdida entre Personare, agendas de reuniões, fofocas e posições políticas. Os trânsitos astrológicos a lembraram pra não tomar nenhuma decisão. Mas como viver ser tomar decisões? Todos os dias? A cada minuto? Ela tem estado sem ar. Não apenas simbólico. É na pele mesmo. Quando caminha pela rua de máscara pra Covid, ela tem sentido falta de ar. Mesmo quando não está de máscara. Além da máscara da Covid. Seu peito aperta. Ela anda. Falta ar. Peito apertado. Ela anda. Só-somente-sozinha como é. Ela não está conseguindo dar conta de tantas dores. As dela. As dele. As do mundo. A angústia está tomando conta de modo excepcional dela. Ela perguntou a ele sobre o resultado do exame neurológico que fez. O resultado falado por ele quase a fez despencar de vez. Talvez se não estivesse já deitada no sofá, tivesse mesmo despencado. O indicativo do exame aponta para uma doença degenerativa, sem cura e com tempo determinado de vida. Ela se segurou. Espe...

Viagem

Parece que foi ontem. Foi mesmo ontem. Agressão. Choro. Ilusão. Dor. Choro. Vida. Quer dizer: não morte. Ele provocou. Outra vez. Ela respondeu. Ele a acusou de louca. Outra vez. Ela se reconhece. Ele zombou que ela estava babando. Ela se reconhece. Primeiro porque se sabe mulher. Segundo porque se sabe cuidando de sua própria saúde. Só-somente-sozinha como é. Voz alta e aparelho nos dentes. Dois novos diagnósticos de loucura. Ela precisa lembrar disso no futuro. É doida. Quando estiver atendendo seus estagiários ou clientes. Ela odeia a palavra cliente nesse contexto. Mas é o comum. Ela deixa pra lá. Tal qual a linguagem neutra ou com consideração de gênero. Ela está cansada. Das paredes. E do que está entre as paredes. Principalmente. Ela deseja poder ir a um Congresso. Aeroporto. Avião. Colegas. Fococas. Roupa de frio. Maquiagem. Hotel. Restaurante. Gargalhada. Política. Cerveja. Viagem. Ela deseja ir a outra cidade. Estrada. Campus. Colegas. Fofocas. Roupa de frio. Maquiagem. Hotel...

Me poupe de sua voz!

Essa foi boa. Hoje ela estava cuidando de sua alimentação. Fazendo suas verduras e saladas. Ela só-somente-sozinha cuida disso ultimamente. Um vuto começou a passar por ela. Cara feia. Atitude agressiva. Ela pergunta: tá intrigado, é? Eita que foi o estopim pra agressão. Voz alta. Acusações. E veio a frase master: "Fique calada, me poupe de sua voz". Ela ouviu e gaitou. Riu alto dada a agressão fortuita. Falou alto dada a frase de ordem para emudecer. Reagiu. Saia da minha casa. Incomodado? Pegue seu banquinho e saia de mansinho. Ela não vai engolir a agressão verbal. Ela não vai ter medo. Ela já está só-somente-sozinha a muito tempo. NÃO! Ela se recusa a baixar a cabeça como fez em tempos passados. Ela tem uma prioridade básica: cuidar de si mesma. Cuidar para se manter com saúde. Cuidar para se manter lúcida e ativa. Ela deseja ficar bem para voltar a amar no futuro. Sim. Ela ainda tem desejos. Apesar da não morte. Ou justamente por causa da não morte. Não importa agora. El...

Onde?

Gente! Que vontade de se separar formalmente. Ela não consegue pensar em outra coisa nos últimos tempos. Na mesma medida que ela tem clareza absoluta de que é só-somente-sozinha. Ela pensa na vida sem uma pessoa na mesma casa para falar qualquer merda.  Ela já viveu assim. Lembra dos dias em Garanhuns. Naquela época que passava finais de semana por lá. Geralmente era pra economizar dinheiro. Mas também por querer mesmo. Gostava de ficar longe das pessoas de vez em quando. Passava o final de semana todo dentro de casa. Cozinhava o que queria. Dormia. Comia. Deitava. Via tv. Ficava na internet. Comia. Fumava. Naquela época ela fumava muito. Mas tudo no tempo dela. Naquela época ela não precisava se preocupar com agradar ninguém. Simplesmente vivia. Do jeito dela. Na hora dela. Se sentia bem em não precisar lidar com a cara feia ou com o mal humor de ninguém. Às vezes ela sentia saudade. Igual tá sentindo agora. Só que diferente. As vezes ela queria estar no meio da multidão. Tomando ...

Nas ruas

Você sabia que usando máscara na rua voce pode deixar de usar outra máscara e chorar à vontade? Ninguém vê. Ninguém percebe que a máscara caiu por baixo da máscara. Ela tem experimentado bastante poder chorar sem máscara, debaixo da máscara quando consegue estar só-somente-sozinha no meio de rua.  Lágrimas caem igual suor. O óculos embassa tal e qual suor. A máscara está lá. Por baixo dela, suor, muitos tipos de bocas, caretas e lágrimas. Quando ela está só-somente-sozinha não precisa usar máscara, embora esteja com uma por causa da crise sanitária. Hoje ela foi ao cirurgião. Pensou que sairia da consulta com data agendada de sua próxima cirurgia. Ou a primeira cirurgia planejada de que se lembre. A primeira que tenha planejado conscientemente só-somente-sozinha. E lá estava ela. Na rua. Perto do consultório. Engolindo o choro porque o médico, apesar da máscara, poderia perceber algo. Toca música no seu fone de ouvido, mas ela não está escutando. Seu barulho interno é bem maior. A ...

Lá e de volta outra vez

Ontem ela foi ao médico cirurgião. Homem bem machista. Grosseiro tentando ser engraçado. Autoritário. Ela logo entendeu o modus operandi do doutor. Entrou no jogo. Mais pra saber a avaliação diagnóstica, do que pela falsa simpatia exagerada.  Após um quase longo questionário. Em meio a histórias sobre o interior. Ela estava lá pra tratar sobre seu interior. A conversa girava sobre cidades do interior. Daquelas que não interessam mais a ela faz tempo. Mas fingiu interesse na conversa. Estava firme no propósito. Queria falar sobre seu interior. Riu. Fez caras e bocas. Embora as bocas fossem invisíveis ao outro, por causa da máscara de proteção. Ela não esquece. Sempre vê a Covid pela janela. Rodeando o quarterão aos papos com a H3N2. Conversa vai. Conversa vem. Mais vai do que vem. E ela segue firme no propósito. A ansiedade aumenta. Ela esconde. Precisa permanecer amigável. Tem propósito. O doutor termina o questionário. Parece relaxar na cadeira. Enconsta as costas. Relaxa os ombr...

Quando Fevereiro chegar

Os dias tem passado de forma bem arrastada. Ela tem estado com o corpo muito fatigado, sem energia e desconfia que seja reflexo da H3N2. Não conseguiu testar pra saber com certeza absoluta. Mas os relatos dos amigos, e algumas conversas com profissionais de saúde próximos, lhe dão a clareza subjetiva que não conseguiu com certeza objetiva. Continua de férias. Tem pensado, cada vez mais, no retorno às atividades presenciais. Sente-se ambígua. Quer e não quer. Deseja e sofre. Isso tem feito ela se voltar para preparação diante do inevitável. Precisa de roupas de frio. Precisa de lenços. Precisa de força. Precisa de criatividade. Precisa de muitas coisas. Algumas ela vai comprar nas lojas. Só algumas. Outras ela pretende comprar na existência. Espera que nas lojas e também na existência encontre tudo que necessita. Senão, vai precisar de mais criatividade. E aí como vai comprar? Perdeu o rítmo das caminhadas e da alimentação. A dificuldade de levantar o corpo do sofá não colabora. Uma ami...