Lá e de volta outra vez
Ontem ela foi ao médico cirurgião. Homem bem machista. Grosseiro tentando ser engraçado. Autoritário. Ela logo entendeu o modus operandi do doutor. Entrou no jogo. Mais pra saber a avaliação diagnóstica, do que pela falsa simpatia exagerada.
Após um quase longo questionário. Em meio a histórias sobre o interior. Ela estava lá pra tratar sobre seu interior. A conversa girava sobre cidades do interior. Daquelas que não interessam mais a ela faz tempo. Mas fingiu interesse na conversa. Estava firme no propósito. Queria falar sobre seu interior. Riu. Fez caras e bocas. Embora as bocas fossem invisíveis ao outro, por causa da máscara de proteção. Ela não esquece. Sempre vê a Covid pela janela. Rodeando o quarterão aos papos com a H3N2.
Conversa vai. Conversa vem. Mais vai do que vem. E ela segue firme no propósito. A ansiedade aumenta. Ela esconde. Precisa permanecer amigável. Tem propósito. O doutor termina o questionário. Parece relaxar na cadeira. Enconsta as costas. Relaxa os ombros. Me conte sua história. Ela já entendeu o modus operandi. Fala tudo em três minutos. Quase mais rápido do que o tempo que costuma ter nas infinitas reuniões virtuais que participa ao longo do dia.
O doutor olha os exames dela. Rapidamente mostra o problema. Explica. Aponta. Ela segura a ansiedade e a vontade de chorar. O doutor pega uma coisa que parece maquete de abdômen. Cheia de desenhos. Mostra onde está o problema. Mostra as consequências. Mostra o que deve ser feito. Mostra o que acontece se o que deve ser feito não for feito. Ela engole seco. Não se importa em disfarçar. Ninguém percebeu. Os outros olhos estão no dedo indicador do doutor apontando o problema no negócio que parece maquete. Ela está de máscara protetora de Covid, de gripe e de sentimentos.
A pessoa que mora com ela. Aquele que era companheiro. Aquele que precisa ser lembrado que não é sobre ele, mas sobre ela. Faz uma pergunta: quanto tempo de recuperação? O doutor é rápido novamente. Um dia a cirurgia. Outro dia ela volta pra casa. Ele insiste: quais os procedimentos quando ela voltar pra casa? Precisa de repouso? Pergunto porque sou eu que vou ter que cuidar. O doutor, curto e grosso, diz: vida normal.
Ela vê a cena dos dois homens. Quase como se ela própria não estivesse ali. Na hora, na horinha mesmo, ela não se preocupou com a suposta preocupação dele. Ela se arrumou na cadeira e seguiu fazendo suas próprias perguntas. Quando será? Como marcar? Onde será? O que acontece antes? O plano de saúde cobre? Precisa pagar alguma coisa por fora? Quanto custa? Ela quer ter o máximo de informações possível. Ela sabe que tem que providenciar tudo só-somente-sozinha. Tal como é. Sempre foi.
Precisa de parecer cardiológico. Ela volta pra casa andando devagar e falando rápido. Não quer o silêncio. Não quer se deixar abalar por ser só-somente-sozinha. Em casa, ela pensa nas perguntas dele. Imediatamente define o que já está definido em sua vida há muito tempo. Queria ratificar pra ele. Não precisa fingir preocupação. Você não ficará cansado. Ela vai contratar uma pessoa para o dia seguinte.
Ao invés disso ela opta por ela mesma. Ela é só-somente-sozinha. Ela chora. Ele joga. Ela entra em reunião virtual. Ele joga. Ela descobre a excelente reputação do médico. Ele joga. Ela fica muda. Ele vai dormir. Ela se sente livre. Ele acorda. Ela retorna ao palco. Acabou a ilusão de liberdade. Retoma seu teatro cotidiano. Ela vai pra cama.
Hoje ela conseguiu o parecer cardiológico. A morte e a não morte estão ensaiando. Em breve, qual estará em cartaz? Ela chora. Só-somente-sozinha.
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