O grito!
Tenho vontade de gritar. Muita vontade de gritar alto. Chorar copiosamente. Colocar pra fora esse sentimento horrível que estou sentido. Mas como? Como vou conseguir um espaço físico pra fazer isso? Estou sufocada. Quase sem respirar. Quase.
Pressão. Alta. Sufoco. Sem ar. Dor. Angustia. Choro. Não engulo. Mas também não choro. Evito. Dor. De cabeça. Pressão alta. Micro choques se espalhando pelo corpo. Dos pés à cabeça. Daqueles que se sente quando se toma um susto grande. Calafrio. Preciso gritar.
Queria mesmo poder deitar no colo de alguém. Chorar copiosamente. Gritar sem limites. Mãe. Preciso do colo de mainha. Mas esse eu já não tenho faz tempo. Quem está nessa função agora? Ninguém. Nunca se pode ocupar essa função depois dela. Também preciso soltar esse grito. Da saudade dela. Da falta dela. Daquilo que já nem lembro mais que um dia existiu.
A doença incurável. A dor. O sofrimento. A falta. A morte. O luto. Eis-me aos 13 anos. Eis-me aos 44 anos. Ele NÃO TEM ESSA DOENÇA! Eis o imperativo espiritual do momento. ELE NÃO TEM ESSA DOENÇA! Ouviu Boiadeiro? Ouviu? Foi Padre Cosmo quem passou o recado. TIRE ISSO DA SUA CABEÇA, MENINA. NÃO É ESSE O RECADO. É UMA COISA BEM MAIS SIMPLES.
Essas palavras gritam dentro de mim. Pra fora de mim não consigo gritar. Não tenho espaço pra fazer isso. Não tenho onde fazer isso. Chorar. Gritar. Ficar em posição fetal. E apenas receber colo. Não preciso de palavras. Apenas de colo. Grito. Choro. Proteção. Força. Fé. Providência divina. Padre Cosmo não erra. É um vidente. Foi o que me disseram sobre ele. Preciso de fé.
Fé. Força. Sertralina. Providência divina. Choro. Colo. Rivotril. Gritar. Gritar. Gritar. Quando? Como? Onde? Só-somente-sozinha? Se não, com quem? Com mainha. Mas ela já não está mais aqui. ELA não está mais aqui.
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