Roda mundo, roda moinho
Ela não sabe exatamente o que fazer. Anda meio perdida entre Personare, agendas de reuniões, fofocas e posições políticas. Os trânsitos astrológicos a lembraram pra não tomar nenhuma decisão. Mas como viver ser tomar decisões? Todos os dias? A cada minuto?
Ela tem estado sem ar. Não apenas simbólico. É na pele mesmo. Quando caminha pela rua de máscara pra Covid, ela tem sentido falta de ar. Mesmo quando não está de máscara. Além da máscara da Covid. Seu peito aperta. Ela anda. Falta ar. Peito apertado. Ela anda. Só-somente-sozinha como é.
Ela não está conseguindo dar conta de tantas dores. As dela. As dele. As do mundo. A angústia está tomando conta de modo excepcional dela. Ela perguntou a ele sobre o resultado do exame neurológico que fez. O resultado falado por ele quase a fez despencar de vez. Talvez se não estivesse já deitada no sofá, tivesse mesmo despencado. O indicativo do exame aponta para uma doença degenerativa, sem cura e com tempo determinado de vida.
Ela se segurou. Esperou ele ir dormir. Chorou copiosamente. Não consegue imaginar sua vida sem ele. Pior. Vendo ele se degradar a cada dia. Até o momento final. A dor é enorme. Ela não aguenta. Ele pensa que o que sente fisicamente é psicológico. Ela sabe que isso é defesa dele. Melhor que a tenha. Mas ela tem muito medo do que a neurologista vai dizer quando ver o indicativo do exame que pediu.
Ela estará lá com ele. Não consegue apenas esperar ele dizer alguma coisa. Ela tem muitas perguntas. Ela fará todas pra médica. Ela não está suportando. Está com medo. Muito medo da morte. Do morrer. Do sofrer. De novo. Outra vez. Da perda. Do vazio. Mesmo ela sendo só-somente-sozinha. Ela não é vazia. Ela não vive no nada. Na ausência. Ela ama. Tem medo. Sente dor. Ela não está no vazio.
Ela conversou com amigas. Pediu ajuda. Só consegue chorar em casa quando ele vai dormir. Ela também chora quando anda na rua sozinha. Sob a máscara da Covid. Quando consegue ficar sem máscara. Na casa das amigas ela chorou. Soluçou. Chorou. Soluçou. Muito. Desabafou sobre a dor. Se sentiu acolhida. Elas não podem fazer muito. Não podem fazer milagre. Ela espera por milagre?
Calma. É só indicativo. Precisa investigar. Não é assim tão rápido. Tenha calma. Sinta-se abraçada. Solicite uma segunda opinião. É importante contar todo o histórico neurológico dele. Precisa investigar. Ter calma. Investigar. Cuide do seu coração. Tenha calma. Vamos pagar consulta com o neuro que confiamos. Não se preocupe. Ela ouve. Não absorve. Sente dor. Medo. Dor. Medo. Muito medo. Ela ama. Ama muito. Não é vazia. Ela não vive no nada. Ela ama. Ama muito. Sente dor. Medo. Muito medo. Mas se deixou abraçar. A Covid não atrapalhou desta vez. Ela está sentindo tudo de modo muito intenso.
Roda mundo. Gira. É carnaval. Ele faz planos pro próximo carnaval. Ela sente medo. Ela está de máscara. Não a da Covid. Aquela que ela precisa usar todos os dias. Mesmo dentro de casa. Roda mundo. Moinho. Medo. Gira. Ela tem medo de dizer de seu medo. O medo não pode ser maior. Ela já não está conseguindo suportar o medo. Ela ama. Ama muito. Só -somente-sozinha. Ama.
Comentários
Postar um comentário