Quando Fevereiro chegar

Os dias tem passado de forma bem arrastada. Ela tem estado com o corpo muito fatigado, sem energia e desconfia que seja reflexo da H3N2. Não conseguiu testar pra saber com certeza absoluta. Mas os relatos dos amigos, e algumas conversas com profissionais de saúde próximos, lhe dão a clareza subjetiva que não conseguiu com certeza objetiva.

Continua de férias. Tem pensado, cada vez mais, no retorno às atividades presenciais. Sente-se ambígua. Quer e não quer. Deseja e sofre. Isso tem feito ela se voltar para preparação diante do inevitável. Precisa de roupas de frio. Precisa de lenços. Precisa de força. Precisa de criatividade. Precisa de muitas coisas. Algumas ela vai comprar nas lojas. Só algumas. Outras ela pretende comprar na existência. Espera que nas lojas e também na existência encontre tudo que necessita. Senão, vai precisar de mais criatividade. E aí como vai comprar?

Perdeu o rítmo das caminhadas e da alimentação. A dificuldade de levantar o corpo do sofá não colabora. Uma amiga disse que tem um amigo cujos sintomas foram "de desejar morrer". Desde a não morte, ela evita pensar, ler e ouvir metáforas sobre a morte. Ela sabe que a não morte é só um suspiro. Sabe na existência. Sabe na pele. Sabe nos stents. Três. Ela sabe. 

Entendeu o que o amigo da amiga quis dizer. Ela não conta pra ninguém como tem sido esquisito metaforizar a realidade e a morte. Depois da não morte. Morte. Não morte. Vai e vem. Desejo. Sofrimento. Viagem. Presencial. Morte. Não morte. Estrada. Síncrono. Gripe. Covid. Ela continua vendo o vírus pela janela. Ele tem estado sempre lá. 

Sonha com momentos fisicamente só-somente-sozinha. Tem pesadelos com estar só-somente-sozinha. Deseja estar só-somente-sozinha. Ela é assim. Sabe disso desde seus 13 anos de idade. Sabe que vai passar por uma nova prova de não morte. Na próxima segunda um médico vai dizer pra ela. Lhe ocorreu de aproveitar esta prova e fazer uma plástica. Quem sabe tirar o excesso de gordura do bucho. Lipo seria pouco. Precisa cortar fora mesmo. Seria mais rápido do que voltar a ter energia pra caminhar, pesar comida e ser saudável. Ela ainda sente dificuldade em levantar do sofá.

Finge que está retomando sua rotina. Vida normal. Normal? Não morte. Ilusão. Ela sempre se agarra a alguma ilusão. Não adianta. Ela não faz força. Simplesmente se ilude. Sabe disso. Pronto! Não morte. Não carnaval. Não liberdade. Não estar só-somente-sozinha. Não presencial. Não férias. Ilusão sim. Mente deliberadamente. Principalmente pros outros. Os outros eus dela mesma são os primeiros da fila da mentira. As outras elas adoram se agarrar em ilusões. E assim segue. Em fevereiro...

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