Me poupe de sua voz!
Essa foi boa. Hoje ela estava cuidando de sua alimentação. Fazendo suas verduras e saladas. Ela só-somente-sozinha cuida disso ultimamente. Um vuto começou a passar por ela. Cara feia. Atitude agressiva. Ela pergunta: tá intrigado, é? Eita que foi o estopim pra agressão. Voz alta. Acusações. E veio a frase master: "Fique calada, me poupe de sua voz". Ela ouviu e gaitou.
Riu alto dada a agressão fortuita. Falou alto dada a frase de ordem para emudecer. Reagiu. Saia da minha casa. Incomodado? Pegue seu banquinho e saia de mansinho. Ela não vai engolir a agressão verbal. Ela não vai ter medo. Ela já está só-somente-sozinha a muito tempo. NÃO! Ela se recusa a baixar a cabeça como fez em tempos passados. Ela tem uma prioridade básica: cuidar de si mesma. Cuidar para se manter com saúde. Cuidar para se manter lúcida e ativa. Ela deseja ficar bem para voltar a amar no futuro.
Sim. Ela ainda tem desejos. Apesar da não morte. Ou justamente por causa da não morte. Não importa agora. Ela precisa tentar não morrer. Mas, se tiver que escolheu, prefere morrer em paz do que viver no inferno. Sim. Ela está cheia de si. Cheia de princípios. Cuidar de si. Não sucumbir incomoda outros. Ter vida. Já pensou? Viver incomoda outros. Quem poderia imaginar isso? Ela não imaginou. Por isso a queda. A ilusão vencida. A verdade que irrevogável. Ela é só-somente-sozinha.
No próximo dia 23/02 completaria 15 anos de relacionamento. Incrível, né? São muitos rompantes tal qual o de hoje na vida dela. Ela não esquece, nem quer esquecer do que já viveu. Hoje, após a agressão, ela recorda com força as outras agressões relevadas. Sente com muita força o medo que sentiu dele e da polícia na sua porta. Bem ali. Na saudosa Rua Bernardino Guimarães. Primeiro andar. Garanhuns. Pernambuco. Sente medo. Dor. Tristeza. Decepção. Mas tem uma certeza: não vai mais baixar a cabeça.
Ela é a própria prioridade. Ela não vai abrir mão disso. Especialmente após o momento de não morte. E antes de outro período que pode ser de não morte. Mas pode ser morte. Não. Morte. Vai saber.
Ela anda ansiosa. Pelo próximo procedimento. Pelo retorno à Garanhuns. Antes a natureza dessa ansiedade era diferente. Agora tem ares de liberdade. De ar. Vida. Antes não. Agora sim. Compra roupas. Se prepara. Projeta sua vida daqui a um mês. Quer dias de liberdade. Que estar longe dele. Do ar sufocante.
Ela quer vida. Longe de quem se sente cansado para cuidar dela. Justamente quando ela mais precisou. De forma prática mesmo. Fisicamente falando. Era limitação física. Era necessidade básica. Era o peso da não morte. Era vida. Ela cansou ele. Ela teve que reagir psicologicamente. Fisicamente estava com muitas limitações.
Naquele momento. De cobrança pelo cansaço do outro. Ela sentiu o coração recém operado acelerar. Achou que poderia não aguentar fisicamente. Ela aumentou a voz e respondeu. Não se preocupe. Você não precisa cuidar fisicamente dela. Ele estava livre. Ela estava desnuda só-somente-sozinha. Levantou a cabeça. Ficou tonta. O coração acelerado. A voz alta. Fizeram ela cambalear. Ela se segura. Fica firme. Segue pra cadeira. Se senta. Fica firma. Respira. Se concentra. Não quer voltar à emergência do hospital. Vai se acalmando.
Hoje. Depois do arroubo agressivo. Ele almoçou. Tomou banho. Saiu de casa. Ela disse para ele levar a chave. Poderia ter saído de mala e cuia. Saiu apenas com a chave na mão. Ela continuou cuidando de seu almoço. Conversou pelo app sobre trabalho. Almoça só-somente-sozinha. Levanta a cabeça. Chora. Não quer fazer isso com ele por perto. Chora. Ela toma seus remédios. Chora. Finalmente levanta. Toma banho. E vai tentar marcar sua próxima cirurgia.
Vida. Não vida. Sobrevida. Morte. Vida. Sim. Não. Chora. Será?
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