Nas ruas
Você sabia que usando máscara na rua voce pode deixar de usar outra máscara e chorar à vontade? Ninguém vê. Ninguém percebe que a máscara caiu por baixo da máscara. Ela tem experimentado bastante poder chorar sem máscara, debaixo da máscara quando consegue estar só-somente-sozinha no meio de rua.
Lágrimas caem igual suor. O óculos embassa tal e qual suor. A máscara está lá. Por baixo dela, suor, muitos tipos de bocas, caretas e lágrimas. Quando ela está só-somente-sozinha não precisa usar máscara, embora esteja com uma por causa da crise sanitária.
Hoje ela foi ao cirurgião. Pensou que sairia da consulta com data agendada de sua próxima cirurgia. Ou a primeira cirurgia planejada de que se lembre. A primeira que tenha planejado conscientemente só-somente-sozinha. E lá estava ela. Na rua. Perto do consultório. Engolindo o choro porque o médico, apesar da máscara, poderia perceber algo. Toca música no seu fone de ouvido, mas ela não está escutando. Seu barulho interno é bem maior.
A consulta é rapida. Ela mostra a autorização do cardiologista. Recebe autorização do cirurgião. E vai pegar com a secretária o pedido de autorização. Ela então percebe que não vai sair com data agendada. Sua ansiedade dos dias anteriores vai para o ralo. A secretária diz que, se o plano de saúde, o hospital, o médico, a instrumentadora... Autorizarem, quem sabe dê pra fazer a cirurgia no início de março. Corra! Solicite autorização o mais rápido possível! Você quer que tudo dê certo, não é mesmo? Corra!
Ela pede um segundo de atenção. Se desculpa pela falta de experiência. Pergunta sobre alimentação, procedimentos preparatórios para a cirurgia. A secretária responde em linhas gerais. Ela pergunta sobre o pós cirurgia. A secretária diz: isso é com o médico. Quando a data da cirurgia for confirmada, ela receberá as orientações completas sobre a dieta pré e pós cirurgia.
Ela torce para que tudo signifique período de não morte. Ela está acostumada à não morte. Ansiedades. Ilusões. Decepções. Alegrias. Angústia. Com tudo isso ela está acostumada. Ela só não pode esquecer que é só-somente-sozinha. Isso é condição de não morte. Sai do consultório. No caminho de volta pra casa experimenta não usar máscara por baixo da máscara. Chora. Pessoas passam. Ela anda. Chora. Ninguém percebe. Chora. Melhor assim. Chora.
Ela chega em casa. Está na hora de vestir mais uma máscara. Ou várias ao mesmo tempo. Depende do quanto ela está disposta. Ela tira a máscara da rua. Embaixo, já está com outra. Pegou uma qualquer. Apenas para dar resposta conveniente. Sente profunda dor só-somente-sozinha. Se esconde num cômodo da casa. Retira todas as máscaras. Chora. Em silêncio. Chora.
Olha para a hora. Precisa lavar o rosto e colocar qualquer outra máscara que conseguir. Dada as circunstâncias, qualquer máscara serve. Ela olha pela janela. Vê a Covid e a gripe andando de mãos dadas pelo quarteirão. Confere mais uma vez o relógio. Está na hora de atuar. Respira. Enxuga as últimas lágrimas. Lava o rosto. Pronto! As cortinas se abrem.
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