Viagem
Parece que foi ontem. Foi mesmo ontem. Agressão. Choro. Ilusão. Dor. Choro. Vida. Quer dizer: não morte. Ele provocou. Outra vez. Ela respondeu. Ele a acusou de louca. Outra vez. Ela se reconhece. Ele zombou que ela estava babando. Ela se reconhece. Primeiro porque se sabe mulher. Segundo porque se sabe cuidando de sua própria saúde. Só-somente-sozinha como é.
Voz alta e aparelho nos dentes. Dois novos diagnósticos de loucura. Ela precisa lembrar disso no futuro. É doida. Quando estiver atendendo seus estagiários ou clientes. Ela odeia a palavra cliente nesse contexto. Mas é o comum. Ela deixa pra lá. Tal qual a linguagem neutra ou com consideração de gênero. Ela está cansada. Das paredes. E do que está entre as paredes. Principalmente.
Ela deseja poder ir a um Congresso. Aeroporto. Avião. Colegas. Fococas. Roupa de frio. Maquiagem. Hotel. Restaurante. Gargalhada. Política. Cerveja. Viagem. Ela deseja ir a outra cidade. Estrada. Campus. Colegas. Fofocas. Roupa de frio. Maquiagem. Hotel. Restaurante. Gargalhada. Política. Cerveja. Viagem. Ela tem muitos desejos. E ansiedade também por isso.
Ele anda mais ameno. Prefere que ela continue sendo doida. O problema é a lua cheia. Ela menstrua. O problema é a TPM. Lua cheia de TPM. E vice versa. Não importa. Doida. Lua. TPM. Cheia. Ela está mesmo bastante cheia. Ele se torna o quê? Compreensivo? Hoje ele teve sessão de terapia. Outra vez. A culpa é dela que não é analisada. Ele não. Ele sim. Ele faz terapia continuada há anos. Ele se sente gabaritado a julga-la. Portanto. Ele: o Compreensivo. Ela: a Doida.
Começou o semestre letivo. Trabalho. Computador. Trabalho. Óculos. Colegas. Discentes. Trabalho. A viagem está logo ali. Apesar dela continuar vendo pela janela do apartamento, vigésimo andar, a Covid e Gripe andando de mãos dadas.
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