Onde?

Gente! Que vontade de se separar formalmente. Ela não consegue pensar em outra coisa nos últimos tempos. Na mesma medida que ela tem clareza absoluta de que é só-somente-sozinha. Ela pensa na vida sem uma pessoa na mesma casa para falar qualquer merda. 

Ela já viveu assim. Lembra dos dias em Garanhuns. Naquela época que passava finais de semana por lá. Geralmente era pra economizar dinheiro. Mas também por querer mesmo. Gostava de ficar longe das pessoas de vez em quando. Passava o final de semana todo dentro de casa. Cozinhava o que queria. Dormia. Comia. Deitava. Via tv. Ficava na internet. Comia. Fumava. Naquela época ela fumava muito. Mas tudo no tempo dela. Naquela época ela não precisava se preocupar com agradar ninguém. Simplesmente vivia. Do jeito dela. Na hora dela. Se sentia bem em não precisar lidar com a cara feia ou com o mal humor de ninguém.

Às vezes ela sentia saudade. Igual tá sentindo agora. Só que diferente. As vezes ela queria estar no meio da multidão. Tomando uma cerveja. Quem sabe. Dando risada. Dançando um samba. Um côco de roda. Agora é diferente. Pela janela ela continua vendo a Covid e a gripe passeando lá fora. Já não pode ver multidão. Já não sabe mais como é se sentir multidão. Ela chora. Tem chorado bastante desde a não morte.

Ela sente saudades de estar sozinha numa casa. Lembra de cada detalhe do antigo apartamento. Ali, na Rua... Rua o que mesmo? Bernardino Guimarães. Um ap de muitas histórias dela com ela mesma. Das conversas com as muitas delas em voz alta. Sim ela conversava um bucado com as outras elas. Era assim que ela gostava de organizar os pensamentos. Inventar história. Rever outras. Reviver algumas. Viver.

Desde a não morte que ela se sente triste. Podia ser que antes disso ela já estivesse triste. Mas ela adorava se iludir. Lembra? Mas a não morte foi fatal. Ela não consegue esquecer o pós não morte. A dor da não morte. A cobrança da não morte. O passar na cara. A contra-partida. Contra. Partida. Isso mesmo. Ela tem que ser forte. Mas não quer. Mas tem que. Mas não. Tem. Não. Mas...

Ela chora! Só-somente-sozinha. É cobrada. Está cansada. Tem saudade da Rua Bernardino Guimarães. Hoje ela estaria sem ninguém por perto. Segundas eram os dias que ela chegava por lá. Ou já estaria por lá. Padaria. Mercadinho. Casa. Fecha a grade. Fecha a porta. Coloca um casaco. Ali sempre fazia frio à noite. Sempre. 

A saudade. Há saudade. À saudade. Como ela queria ser de novo. 

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