Cof, cof
Pelo segundo dia seguido, ela sai de casa, depois de uma noite em que quase não dormiu, para tentar fazer o teste de Covid. Chega na fila. Constata o óbvio. Está enorme. Mas ela já sabia da realidade. Não é isso q a deixa assustada.
No dia anterior, ligou paro plano de saúde. Quem sabe no privilégio burguês ela conseguiria ser atendida mais rapidamente. Com menos fila e quem sabe até no ar condicionado. Não rolou. Antes mesmo de conseguir falar com qualquer atendente, inúmeras mensagens sobre a enorme busca por teste de Covid. Ali mesmo, pelas falas automáticas/robotizadas, fica ciente que só consiguirá marcar pelo Plano para, pelo menos, daqui a 12 dias. Dessa forma, ela desiste até mesmo de ir no local de coleta do plano de saúde.
Lá está ela. De mini saia, sandália, cabelo meio preso. Suor escorrendo por dentro da máscara KN95, pelas costas e pelos cabelos da cabeça. Ela se lembra que não passou protetor solar. Vai ficar igual camarão ao alho e óleo. Lembra, ainda, da psoríase no couro cabeludo escasso. Se dá conta que, molhados, todo mundo na fila vê suas enormes manchas vermelhas na cabeça. Precisa cortar os cabelos. Já estão grandes demais pra quem é quase careca, pensa ela.
Mas nada disso lhe deixa angustiada. O que lhe faz conferir várias vezes a posição de sua máscara, após várias baforadas de álcool 70% nas mãos, são as pessoas ao seu lado com tosse seca. Ela leu. Se informa bastante. Sabe que isso é sintoma de Covid 19. Cada tossida, uma olhada desconfiada. Cada tossida, um pedido silencioso que o espaço aberto lhe proteja.
Ela confere se as máscaras, dessas pessoas que tossem ao seu lado, são de queixo. Não. Não são máscaras de queixo. São de tecido. Não são adequadas. Mas, ok. Estão cobrindo o que lhes é devido: boca e nariz. Ainda assim, ela se angustia.
Pelo andar da carruagem sem rodas do SUS, ela deve entrar na área de testagem na próxima rodada. As pessoas cof cof ficarão ainda mais perto dela. Lá vai ela. Preenche ficha de dados pessoais. Senta-se. Eita que sentada a fila anda mais rápido!
Próximo. Uma pessoa aqui. Próximo. Três pessoas aqui. Próximo. Tá chegando a vez dela. Próximo. Ansiosa, entra no trailer e, tal qual criança, segue todo o procedimento. Mas ninguém avisou pra ela que iriam enfiar um super contonete nariz a dentro até o cérebro. Tal qual criança, reclamou. Tenha calma. Tá acabando. Ai. Vigi. Só mais um pouco. Aaaaa. Pronto! Pronto! Só esperar o resultado lá fora. Que exame chato, heim! A atendente nem deu bola pra ela.
Passou! Passou! E agora? Entre uma especulação, ansiedade e o resultado... Chuva. Para lavar a alma dela. Chuva! Ela vai para uma área se abrigar. Olha e sente o cheiro dela. Dela mesma, não. Da chuva. Fulano. Beltrano. Chuva. João, Maria, José. Chuva. Cicrano. Parou a chuva. E chamam o nome dela. Com olhar de alívio, a atendente diz: Negativo. Ufa! Negativo.
Sabe o fantasma da Civid 19? Então, continua lá fora. Dá pra ver pela janela. Atchim. Cof. Cof. Atchim.
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