Primeiras incursões sobre 2022
01/01/2022. FERIADO? Sabadão. Folga? Sol, janela, plantas... Covid 19 lá fora. Vejo pela janela. A mesma que vejo o céu e, lá looonge, o mar. Internamente ela pensa: será que vai ter um piripaque, de novo? Tomou bastante espumante no dia anterior. Precisava bebemorar o final cronológico de um ano em que ela quase morreu. Não de forma metafórica. Desse modo ela já morre muitas vezes. Inclusive no mesmo dia. Dependendo do tamanho do entusiasmo e das desilusões cotidianas. Aliás, o novo ano começa com características profundas de desilusões. A não morte física desencadeou uma série de desilusões. Visões de coisas, talvez, já meio óbvias que ela fazia questão de não dedurar. Pra não doer, quem sabe. Vai saber!
03/01/2022. Primeiro DIA ÚTIL. Útil? Prova. Avaliação. Nota. Sistema. Síncrono. Lançou? Ainda não. Assíncrono. Lista. Tudo certo. Confere. Porque essa nota? Justifica. Explica. Revê. Mais sistema. Férias? Meu Deus! 2021 não acaba nunca? Eita, peraí, é 2020 que não acaba nunca. Cansaço. Doença. Corpo que não aguenta. Cabeça que tenta descomplicar o cotidiano. Olhos que enxergam o que não queriam.
Ela está triste! Se sente triste! Se sente só! Ela é só!
A vida vai e volta e sempre bate na cara dela: você é só! Só de sozinha mesmo. Só de somente mesmo.
Vamos conversar sobre ela. Ela que é só, somente, sozinha.
Ela convive com uma pessoa. Um companheiro? Quem sabe? Já foi, poderia ter sido, será ainda? Uma pessoa que, nos dias de recuperação da não morte, acusou-a de não saber deixar que outras pessoas cuidem dela. Ué! Mas, logo ela!? Só, sozinha, somente!? Ela se deixou cuidar por outrem. Sabe o que rolou? Foi cobrada depois por ter causado excesso de cansaço no cuidador. Dirão: mas não foi bem assim. Mas foi assim que ela se sentiu. Então foi assim, sim.
Esbravejou com o outro e, principalmente, consigo mesma. Não acreditou que se deixou iludir pela ilusão de ser cuidada por alguém que ilude dizendo que é cuidador de pessoas iludindo a si mesmo. Ela, só-somente-sozinha que é, não poderia ter caído em tamanha ilusão e chorado, portanto, mais esta desilusão.
Amor? Sim, talvez. Eis o senhor das ilusões. A convivência é foda! Haja amor pra tanta convivência. E na pandemia então?! Haja amor pra tanta convivência na não morte física. Não tem convivência que aguente. Ou seria amor que não aguente? Tanto faz. Depois de alguns muitos anos, realmente tanto faz. Chega um momento que não se distingue essas coisas com tanta facilidade. Ou será essa mais uma ilusão dela?
Cozinha. Hora do café. Comida. Hora do Almoço. Lanchinho. Docinho. Hora do café. Janta. Ceia. Guarda o que sobrou na panela. Amanhã tem mais. É cansativo comer todo dia. Mais de uma vez ao dia. E o gás? Tá sabendo quanto custa o gás? E a conta de luz? Desliga esse microondas, garota! Ela não tem maturidade pra desligar o microondas. Eis a cara feia! Sabia?
Ela quer gritar, mas não pode. Ela quer chorar muito, mas também não pode. Ela quer dizer do medo da não morte, mas não pode. Ela quer ficar deitada, mas não pode. Ela quer receber dengo, mas não pode. Ela quer estar sozinha, mas não pode também. Sempre tem alguém perguntando o que foi? Sempre tem alguém querendo a atenção e compreensão dela. Parece que ela escuta muito bem. Tem grandes, pesadas e abertas orelhas. Pera lá... isso é literal? Imaginei um animal com cabeça miúda e grandes, pesadas e abertas orelhas. Imagem curiosa, essa!
Logo ela. Só-somente-sozinha. Queria não ser. Estar sendo pra ela é difícil. A não morte é difícil. Quer amor sem cobrança, mas ela própria o faz. Mas, na não morte tudo ficou mais difícil. Ela não quer mais compreender. Quer ser servida. Só um pouco. Mas ela é só. Ok!
FÉRIAS! Eita que bom! Praia, sol, mar, piscina, amigos, risadas, cervejas, passeios, beijos, ilusões... Não, não. Troca tudo por exames em consultórios médicos. Gineco é última da fila, após cárdio? Quem dera! Tem o cirurgião geral marcado. Há pedras e gorduras a serem retiradas. Vai querer ir parar na emergência de novo, menina?
Sabe aquela Covid 19 que ela via pela janela? Então! Sintomas de síndrome gripal resolveram pousar nela. Logo após as secretárias da gineco espirrarem na sala de espera com suas máscaras de queixo. Máscaras de queixo são as mais utilizadas nessa pandemia. Haja queixo bem protegido. Ela acha curioso, lamenta e reclama com quem usa esse tipo de máscara ao lado dela.
Só que dessa vez ela não foi tão rápida quanto o espirro. Foram dois na sequencia. Tão rápidos que ela ficou sem reação, na hora. Depois se deu conta que poderia sair e aguardar ser chamada do lado de fora da sala. Mas foi só depois. Tentou fechar possíveis brechas de sua máscara KN95. Os espirros foram mais rápidos. Tanto tempo vendo o Covid 19 pela janela. E agora ele chega pelo consultório da gineco. Que merda, viu!
Peraí! Ela ainda não sabe se é Covid 19. Não conseguiu fazer o teste ainda. Veremos!
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