Um vírus na fila do teste

"Não é sobre você, é sobre ela!" Disse a médica em tom incisivo ao acompanhante. Ele ficou calado. Ela, no fundo, gostou da intervenção. Estava cansada de tentar não ser protagonista da própria não morte. Mas ela era. Foi ela quem não morreu. É nela que as consequências disso reverberam. Tudo é sobre ela na não morte dela.

Corpo mole. Espirro. Coriza. Espirro. Sono. Moleza. Espirro. Coriza. 
Tudo começou na noite de domingo. Ela só-somente-sozinha levanta e pega um antigripal. Sente o corpo caindo pelo vírus. Qual vírus? Resolve tomar mais esse remédio junto aos tantos outros que agora, depois da não morte, passaram a fazer parte de seu cotidiano. A janela está aberta. Calafrio. O Covid 19 não está mais lá fora, apenas. Será ele aqui dentro também?

Só-somente-sozinha se dá conta que cada passo dado está mais pesado. Em sua casa não há ilusão que se encontre cuidadores. Ela não se ilude mais com a ilusão do cuidado iludido que se expressa iludindo a si próprio. Ela é só-somente-sozinha. As justificativas é que pesam. O tempo todo: o que foi? Tá sentindo o quê? Quer que eu pegue alguma coisa? O que você quer comer? Ela prefere se imaginar só-somente-sozinha também no ambiente. Assim ela não entra na ilusão do cuidado alheio e se obriga a fazer por si o que necessita. Água. Banheiro. Roupa. Banho. Água. Cozinha. Comida. Ilusão, não!

Os dias passam. Os sintomas pioram. Ela começa a medir taxas de oxigenação e temperatura. Não tem febre. Mas o fantasma do vírus que ela via pela janela está rodando seu corpo e sua cabeça. Quem está ao redor dela não tem preocupação com os sintomas. Não há preocupação com a Covid 19. É nela a doença. Mais uma doença. O companheiro, alheio, reclama que ela não vive a lhe pedir coisas. Ela só-somente-sozinha prefere ficar na sua, só. Pra evitar ser cobrada, no futuro, por causar excesso de cansaço no cuidador. Ela própria está cansada disso.

Terceiro dia. Ela segue com todos os sintomas. Os espirros diminuem. Ela continua só-somente-sozinha. Resolve ir fazer o teste pra saber se o fantasma é real. Será Covid 19? Precisa ter essa resposta. Comenta em casa. Poderia ter permanecido em silêncio. Não faria diferença. Ela vai sozinha ao local de testagem. Dizem pra ela comprar o teste. Ela quer SUS. Ao lado de sua casa.

Se arruma. Coloca sua máscara KN95. Arruma o cabelo. Diz que vai sair. Constata que vai mesmo só-somente-sozinha como é. No caminho se dá conta que precisa passar na farmácia. Seu antigripal acabou. Os sintomas ainda não. Precisa de mais remédio. Na sua casa, tudo segue a normalidade. Não há não morte, nem não Covid 19. Ela reluta, mas pensa: É só uma gripizinha! Não lamente, garota! Você está viva e provavelmente não é Covid. 

Ela segue pela rua. Anda mais devagar. O corpo está mole e pesado. Chega na fila. As fichas acabaram. Eram 500 hoje. Acabaram. Começaram a ser distribuídas às 8h. Às 10h acabou. Não tem sobra hoje. Não adianta ficar na fila. Ainda no mesmo lugar, ela tenta agendar teste em outro lugar. A internet não ajuda. A página está fora do ar. Ela fala pelo zap com um amigo. Pelo Telegram com o companheiro de casa. Um diz que tá foda! Outro tenta ajudar, mas não consegue. Até esse momento, o companheiro de casa não se deu conta que deveria fazer o teste também. Ele pode estar com o vírus. Mas isso não importa. É ela quem está doente. Ela é autosuficiente! Sempre foi! Só-somente-sozinha!

Ela sai andando pela rua em direção à farmácia. Corpo mole, pesado. Enjôo. Máscara que não é de queixo às vezes dificulta a respiração. Ela segue. Pensa em estratégias para pedir ajuda, se precisar, na rua. Não é a primeira vez que faz isso. Muitas vezes na vida ela planejou só-somente-sozinha estratégias pra não sucumbir a esmo, moribunda. O companheiro de casa diz que vai na farmácia porque ela disse estar enjoada, pelo Telegram. Ora, bolas! Que preocupação repentina foi essa? Ela já estava só, na rua. Na fila. Na calçada. Em direção à farmácia. Ele não se deu conta antes? Será?

Além de estratégias de socorro, ela começa a se ver como um vírus andando na rua. Vê as pessoas que usam máscara de queixo. Sente medo por ela e por eles. Ela pode causar a morte de alguém. Ela está infectada. Os sintomas estão explícitos. Gripe ou Covid? Nesse momento não importa. Ela começa a ter medo de si mesma e dos outros com máscaras de queixo. Entra na farmácia. Não há teste lá. Percebe que a seção de antigripais está quase vazia. Há muitos vírus por aí. Ela não é o único vírus ambulante, andando pela calçada.

Volta pra casa. Arrasta o corpo mole e pesado. Falta de ar na máscara que não é de queixo. Mãos na cintura. Se carrega só-somente-sozinha. No hall do prédio, aguarda o elevador. Um garotinho chega com sua avó. Eles entram no elevador. Ela, não entra. Diz pra avó do garoto que vai esperar o próximo elevador porque está com sintomas de gripe. A avó coloca a máscara na criança. Venha, moça! Ok! No meio do caminho, a criança tira a máscara do rosto. Ela quase chora. Se sente muito culpada. A avó diz pra ela não se preocupar. Ela fica sozinha no elevador. Chora! Chora por ser só-somente-sozinha. Chora por estar infectada num elevador com criança sem máscara. 

Ela entra em casa arrasada! O companheiro de casa pergunta se está tudo bem. Ela, como sempre, diz que sim. Enxuga as lágrimas. Fica calada. Tira a roupa. Se higieniza. Deita no sofá. Corpo mole e pesado. Deitada, ela chora. O companheiro de casa se abusa com ela. Ele queria ter feito algo por ela, quando ela estava só-somente-sozinha na rua. 

"Não é sobre você, é sobre ela!" Disse a médica.

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