Contando os dias
Domingo. Ela foi com ele na praia. Tiveram coragem. Se prepararam. Pensaram em local com menos movimento. Pegaram o Uber ou 99. Tanto faz. Foram. Pisaram a areia da praia depois de mais de dois anos. Caminharam até a beira d'água. Sentiram a água do mar nos pés depois de mais de dois anos. Ela não chorou. Apenas pediu.
Rezou em voz alta. Pra ele ouvir também. Ela pediu. Com todo clamor de seu coração. Pediu pra força das águas do mar levar para longe os males do seu corpo e do corpo dele. Pediu para trazer a cura para os dois. Clamou. Rezou. Não chorou. Segurou na mão dele. Apertou. Colocou a outra mão no próprio peito. Rezou. Pediu. Sentiu a água do mar nos seus pés. Afundou na areia no vai e vem das ondas.
Ela precisa de força. Tem apenas fé. Medo. Dor. Angústia. Medo. Morte. Dor. Muito medo. Muita dor. Ansiedade. Angústia. Haja angústia. Como pode ter tanta? Existe. "Viva seus lutos". Disse a ela uma colega de trabalho. Ela não tinha nomeado dessa forma. Ela chama de morte mesmo. De medo do vazio. Do sofá vazio. Da cadeira sem o barulho do videogame. Luto.
Ela já passou por isso antes. Sabe a dor. Sente a dor. Vive a dor. A lua está enchendo. Seu corpo também. Totalmente inchada. Mais dor. Essa do corpo. Na água do chuveiro. No peito nu. Hormônios. Lua. Cheia. Ela está cheia. Dor. Angústia. Medo. Inchada. Dor. Sente. Chora. Agora ela chora. Ansiedade. Na praia. Ela encontrou um modo de estar lá com ele. Na praia. Mas a angústia insiste em estar também. Junto. Não larga nunca.
Sentaram no chão. Em cima do chinelo. Na areia. Ele não consegue mais sentar no chão. Tem dificuldade. Ela percebe. Peito dói. Angústia tá lá com ela. Ela tenta não olhar. Agradece por ele estar lá. Com ela. Mas ela vê. Vê a mão direita em movimento constante. Vê ele tentando não sentir dor na mão direita. Vê ele tentando não mostrar que sente dor sentado no chão. Ele não quer alarmar. Ela faz de conta que não vê. A angústia não deixa ela em paz.
Ele levanta com mais dificuldade. Ele agradece por estar ali. Eles tomam água de côco. Ele se esforça pra segurar o côco. Sentam num batente. Tomam a água. Ele se esforça pra levantar. Outra vez. Está cada dia mais visível a fraqueza nas pernas. O tremor do braço. A fraqueza das mãos. Ela vê. A angústia que vive com ela também vê. Ela sofre. Chora. Sente dor. Angústia. Medo. Muito medo.
Eles andam conversando mais sobre isso. Ela está tentando não sufoca-lo. Deixa que ele seja protagonista de sua própria história. É necessário. A angústia que resolveu viver com ela não dá folga. Nenhuma trégua. A vida é dura. Trégua jamais. Angústia. Ansiedade. Medo. Dor. Luto.
Essa semana ela saberá alguns encaminhamentos. Na quinta. Até quinta. Autorização do plano de saúde pra cirurgia dela. Consulta com neurologista dele. Primeiro curativo espiritual dele. Sim. Ele fez uma cirurgia espiritual. Depois ela conta essa história toda. Até quinta. Hoje ainda é domingo. Angústia. Ansiedade. Medo. Dor. Conta os dias. O que ela vai fazer até lá? Chora. Sente dor. Ansiedade. Angústia. Medo. Muito medo. Luto. Luta. A lua está enchendo!
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