ELA NÃO!

Hoje vou falar deste termo que deixou de ser apenas um pronome e passou a possível diagnóstico em minha vida. Assim, volto a falar em primeira pessoa. A partir de agora. Me posiciono. Nua. Nem pronome. NEM DIAGNÓSTICO. ELA, pela força da fé, passará a ser, muito em breve, algo distante e desconhecido. Fora do convívio. Longe das possibilidades reais cotidianas. Então, que assim se faça. Assumo a primeira pessoa. Porque EU não consigo lidar com ELA sendo falada por ela.

Hoje também resolvi escrever relato. De algo que senti. Da conversa que tive. Das lágrimas expostas. Da angústia mascarada, mesmo sem máscara. 

Hoje ele me contou que chorou por não conseguir lavar uma panela que tinha grudado arroz no fundo. As mãos já resistem em fazer movimentos comuns. Eu chorei junto com ele. Chorando, ele me contou que está percebendo as pernas ficando um pouco mais finas. Chorei junto com ele. Dá pra perceber. Mas só porque conheço bem seu corpo. Cada cantinho. 

Escondi a angústia. Tirei do fundo da alma qualquer máscara e usei. Chorei junto com ele. Peço ajuda dos deuses e deusas. Mando uma msg de zap. Choro junto com ele. Uso a máscara. Escondo a angústia. Escuto com atenção. Ele chora. Me diz que muito do que sente é psicológico. Efeito da pandemia. Saco mais uma máscara. Uso duas. Sobrepostas. Uma só não dá conta de esconder a angústia. Esconder dele. De mim não. Sinto com muita força. Me agarro no que tenho. Na FÉ. Nos recados espirituais que tenho recebido. Lembro da praia. Do padre. Dos sonhos relatados por ele. Rezo. Escuto. Mando outra msg de zap. 

Vou em busca de mais conselhos espirituais. Ele para de chorar. Conversamos sobre a fé que nos move. Falamos como nosso amor é forte e nos sustenta. Unidos. Crentes. Ele diz que chorou lavando a panela porque não seria capaz de pedir minha ajuda agora. Justo agora. Que estou no pós cirúrgico. Com coração dilarecerado, peço ajuda. Mais msgs de zap. Só existem três pessoas que me fazem sentir que não estou sozinha nessa jornada. Três mulheres. Três forças da natureza. Cladinha, Marcela, Socorro. Cada uma do seu jeito. Forças que me sustentam. Que me ajudam a caminhar.

Pergunto sobre uma freira. Claudinha vai em busca dela. Será que está viva? Será que ainda faz atendimentos espirituais? Logo saberemos. Na próxima quinta vou ao encontro do Padre Cosmo. O nosso primeiro encontro foi avassalador. Tudo que falou sobre mim, se realizou. Equipe, tempo do procedimento, recuperação... Bingo. Cartela fechada. Até agora ele acertou em cheio. O Padre também falou sobre ele, Otávio. Tavo. Marido. Meu veinho. A pessoa que escolhi amar. Que me faz sentir amada. Por cada poro do meu corpo. Por cada pedacinho de minha alma. Sim. Ele.

O Padre disse que ele não tem o possível diagnóstico. Que é outra coisa. Que vai ser tratada. Que não é aquela doença. Falou algo sobre hereditariedade. Ficou um pouco confuso na hora. Disse quantos exames o médico vai pedir. Dois. Não. Três. Três exames que vão mostrar que não é essa doença. O Padre não sabia. Mas àquela altura, o médico tinha mesmo passado três tipos diferentes de exames. No dia seguinte, Tavo já faria o primeiro deles. De sangue. Bingo para o Padre Cosmo. O Padre sabia. O Padre sabe.

E com a imagem de Padre Cosmo na cabeça. No coração. Os ânimos se acalmam. Paro de enviar msgs de zap. Recebo de volta mais força. Mais fé. Começo a rezar. Tento acalmar o coração. Tomo Rivotril. Tento acalmar o corpo. Tavo resolve jogar videogame. Eu adormeço. No sofá. Acordo quase uma hora depois. Vamos juntos pra cama. Ele cuida de mim. Eu me preocupo com ele. Ele dorme. Eu cochilo. 

Sem máscaras, não deu certo nem para a reza, nem para o Rivotril. Levanto. Tomo água. Vou para o quarto ao lado. Escuto ele roncar. Fico feliz em poder escutar o ronco dele. Mesmo não me deixando dormir. Ele está ali. Está aqui. Está sentindo que não vai bem. Mas está ao alcance dos meus olhos e ouvidos. 

Escrevo. Relato. Primeiro pessoa. Primeiras pessoas. Plural. Não estou só-somente-sozinha. Estou de mãos dadas. Com ele. Com elas. Com eles. Guias. Luz. Força. Fé.  Não consigo dormir. Não importa. Não estou só. Lá fora começa a chover. Muita chuva. Lavar os males. Fazer renascer. Tenho FÉ!

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